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O spinozismo na obra de Raul Seixas

No início de 2022, durante minha graduação em Filosofia, produzi um ensaio relacionando a obra filosófica de Baruch de Spinoza com a obra lítero-musical de Raul Seixas. O ensaio foi publicado em maio daquele ano na importante revista de poesia e arte contemporânea, Revista Mallarmargens (ISSN 2316-3887). Hoje disponibilizo esse ensaio aqui para vocês! O spinozismo na obra de Raul Seixas

Marcelo Mendonça Filho

 Músico e produtor musical;

Graduado em Direito pelo Centro Universitário de Rio Preto (UNIRP);

Graduando em Filosofia pelo Centro Universitário UniDomBosco;


Introdução

 

Nascido em Amsterdã em 1632, Baruch de Spinoza foi um dos principais pensadores do século XVII, se destacando no estudo da teologia e da política. Por ter gerado ideias muito além de seu tempo, o filósofo holandês foi bastante perseguido, inclusive sendo excomungado de sua religião, o judaísmo. Nas palavras do filósofo francês Gilles Deleuze “nenhum filósofo foi mais digno, mas também nenhum outro foi tão injuriado e odiado” quanto Spinoza.

Spinoza também é comumente conhecido como sendo o filósofo da alegria e da liberdade. É justamente nesses dois campos que a obra de Raul Seixas se encontra com o spinozismo.

Soteropolitano, o músico nasceu em uma família de classe média em 1945 e escreveu seu nome na história da música popular brasileira, fazendo grande sucesso na primeira metade dos anos de 1970. Assim como o filósofo holandês, enfrentou perseguição, não só da ditadura militar brasileira, mas também de grande parcela da sociedade, sendo visto por muitos como a caricatura de um maluco beleza, o roqueiro doidão.

Durante o tempo vivido por Spinoza, passando pela época da presença material de Raul Seixas, e também atingindo os dias presentes, a religião instituída no mundo ocidental continua a derivar do pensamento cristão, burguês, europeu, que institui um modo de vida triste e limitante. 

Dessa forma, o que o filósofo e o compositor baiano mais buscaram na produção de suas obras foi justamente quebrar com esse modo de vida que nos limita, com a moral instituída, que nos transforma nas três personagens classificadas por Spinoza como sendo o escravo, que vive afundado nas paixões tristes e que não sabe como reagir; o tirano, que necessita do povo triste para conseguir dominar; e o padre, que se entristece com a questão humana, quer fazer algo, mas não encontra soluções.

É evidente a diversidade de questões filosóficas trazidas nas músicas de Raul Seixas. Ele dedicou muito do seu interesse intelectual à filosofia, à literatura e à psicologia. Pode ser percebida em sua obra, com relativa facilidade, a influência de pensadores como Schopenhauer, Aleister Crowley e Nietzsche.

Não posso deixar de dizer que a obra de Raul Seixas me despertou interesse ainda na infância e aos onze anos ganhei o livro “Raul Seixas - Uma antologia”, escrito por Sylvio Passos e Toninho Buda, com o qual pude me aprofundar na vida e na obra do músico. Após estudar os conceitos fundamentais da filosofia sponizista, comecei a notar então pontos de convergência do pensamento spinozista na obra de Raul Seixas.

 

Fundamentos spinozistas

 

Antes de relacionar diretamente os trabalhos de Spinoza e Raul Seixas é importante definirmos, ainda que de forma bastante resumida, os fundamentos da doutrina spinozista, ou seja, o que sustenta sua filosofia.

Podemos tratar como fundamentos da filosofia de Spinoza os conceitos de imanência e antifinalismo. Por imanência podemos entender como a presença do resulta de uma ação na própria ação, ou seja, os efeitos estão na causa e as causas estão nos efeitos. No que concerne ao antifinalismo, Spinoza nos leva a pensar que não há uma causa final. O que existe está o tempo todo se afirmando e se recriando.

Dessa forma, posto tais fundamentos, a teoria spinozista traz uma nova forma de se entender o conceito de deus. Ele não é mais transcendente, mas é a própria natureza acontecendo o tempo todo, além de que, se não existe a causa final, significa que deus existe e age por sua própria potência. Spinoza conceitua deus como sendo a própria natureza.

No pensamento do filósofo holandês, a liberdade está em fazer encontrar o conhecimento que temos dos nossos afetos - aquilo que mexe com nossa alma - com a natureza, com a própria expressão do mundo. 

Assim, será usada a obra mais conhecida e aclamada, entitulada “Ética”, como espinha dorsal para este trabalho, uma vez que essa é considerada a principal obra spinozista, capaz de sintetizar o pensamento do filósofo.

 

Deus

 

Durante muito tempo, Spinoza foi alvo de diversas injúrias. Uma delas seria a de ser ateu. Trata-se de uma acusação injusta, como veremos. Com toda certeza, pode se afirmar que Spinoza nega o deus antropológico que nos fizeram acostumar.

A acusação de ateísmo se faz por conta do filósofo propor uma maneira mais interessante de se pensar o divino, que nos leva a um campo maior de alegria, ao passo que a maneira tradicional nos leva ao campo da tristeza, portanto, da servidão.

Spinoza propõe deus como substância única imanente ao universo, portanto, o deus spinozista é a própria natureza acontecendo o tempo todo. Essa imanência é importante para o filósofo, pois ele traz que os efeitos estão na causa e a causa está nos efeitos, ou seja, tudo que acontece, acontece em deus, se desdobrando em si mesmo. Portanto, não há razão possível para o criacionismo. 

Outro ponto importante para Spinoza é que deus não produz com um fim a qual se quer chegar, não havendo uma causa final. O que existe é o passado, o tempo todo se afirmando e se recriando. Há de se ressalvar que o deus spinozista não significa que tudo é deus, mas sim que tudo está em deus, portanto, se trata de um deus imanente.

Raul Seixas, na canção “Para Nóia”, também demonstra a figura de um deus imanente, em consonância com a natureza do deus spinozista.

Medo de saber que não estava ali sozinho porque sempre

[...]

Eu estava com Deus!

[...]

Minha mãe me disse há tempo atrás

Onde você for Deus vai atrás

Deus vê sempre tudo que cê faz

Mas eu não via Deus, achava assombração

Mas eu tinha medo! (grifo nosso)

 

No que diz respeito a Raul Seixas, é possível notar, nas palavras do cantor baiano, o afastamento do deus transcendente e antropológico, bem como do desprovimento de qualquer finalidade possível. Ademais, sobre deus ser a própria natureza acontecendo o tempo todo, como já dito, Raul Seixas, na canção “Todo mundo explica” traz um trecho em total consonância com esse pensamento de Spinoza:

Chega um ponto que eu sinto, que eu pressinto

Lá dentro, não do corpo, mas lá dentro-fora

No coração, no sol, no meu peito, eu sinto

Na estrela, na testa, eu farejo em todo o universo

Que eu tô vivo [...] como uma rocha

E eu não pergunto porque já sei que a vida não é uma resposta

Se eu aconteço aqui se deve ao fato de eu simplesmente ser (grifo nosso)

 

Quando Raul diz que o acontecer é simplesmente o fato de ser, vai de encontro com a aposta spinozista que parte de uma radical imanência de uma ideia de que tudo é, tudo está, então precisamos recuperar a nossa relação com o todo.

Ademais, o mesmo pode ser visto na música “Gita”, que foi inspirada nos escritos do Bhagavad Gita, mas que também possui pontos de encontro com o pensamento de Spinoza sobre Deus.

Eu sou a luz das estrelas

Eu sou a cor do luar

Eu sou as coisas da vida

Eu sou o medo de amar

Eu sou o medo do fraco

A força da imaginação

O blefe do jogador

Eu sou, eu fui, eu vou

[...]

Eu sou o seu sacrifício

A placa de contramão

O sangue no olhar do vampiro

E as juras de maldição

Eu sou a vela que acende

Eu sou a luz que se apaga

Eu sou a beira do abismo

Eu sou o tudo e o nada

[...]

Das telhas, eu sou o telhado

A pesca do pescador

A letra “A” tem meu nome

Dos sonhos, eu sou o amor

Eu sou a dona de casa

Nos pegue-pagues do mundo

Eu sou a mão do carrasco

Sou raso, largo, profundo

[...]

Eu sou a mosca da sopa

E o dente do tubarão

Eu sou os olhos do cego

E a cegueira da visão

Mas eu sou o amargo da língua

A mãe, o pai e o avô

O filho que ainda não veio

O início, o fim e o meio

 

Pode ser notada a similaridade do que traz o Bhagavad Gita, referência utilizada por Raul, evocando uma definição spinozista de deus, onde deus não está separado do mundo. Deus é o mundo, a natureza, sendo tão somente uma coisa única.

 

O corpo e a alma

 

Da mesma forma que foi acusado de ateísmo, Spinoza também chegou a ser acusado de ser materialista, o que também não encontra guarida. As acusações de materialismo feitas por conta de o filósofo estar dizendo: estamos falando o tempo todo sobre espírito, alma, mas por que nunca paramos para refletir sobre o corpo? 

O pensamento antigo costumava separar mente e corpo como a mente precisando controlar, dominar o corpo. Tanto que o contrário acaba sendo verdade para o pensamento tradicional. Spinoza traz a tese do paralelismo descobrindo que as duas coisas estão juntas: corpo e mente. 

São teses subversivas, mas ao mesmo tempo sutis. Spinoza diz que se temos mais mente, temos mais corpo. A nossa capacidade de afetar e de ser afetado, de pensar e de agir, vão juntas, seguindo na mesma direção. Se uma se amplia, a outra também se amplia, indo contra o pensamento tradicional de que a mente deve controlar o corpo.

Sobre o corpo, Spinoza invoca a finitude do homem. A finitude coloca uma limitação que devemos encarar.

Proposição 2. Padecemos à medida que somos uma parte da natureza, parte que não pode ser concebida por si mesma, sem as demais. Proposição 3. A força pela qual o homem persevera no existir é limitada e superada, infinitamente, pela potência das causas exteriores. Proposição 4. Não pode ocorrer que o homem não seja uma parte da natureza. [...] Proposição 7. Um afeto não pode ser refreado nem anulado senão por um afeto contrário e mais forte do que o afeto a ser refreado.

 

Tudo bem possamos ser superados, destruídos ou não podermos sair da natureza, pois um afeto pode ser refreado, mas ele só pode ser refreado por outro afeto. A dinâmica afetiva é a questão spinozista, mas em estado de servidão não conhecemos como ela funciona. É ela que por existir nos coloca em estado de servidão. O mau encontro é como se estivéssemos sempre passando mal.

Raul traz em sua canção “Canto para minha morte” elementos mais do que suficientes para se falar na finitude humana, dado o próprio título da canção. O mesmo ocorre na canção “A geração da luz”, na qual Raul Seixas vai além da questão da finitude, para também falar dos afetos e, de certa forma, guiando para uma possível liberdade, como veremos mais adiante. 

Ainda podemos observar essa mesma temática na canção “Senhora Dona Persona (pesadelo mitológico nº 3)”.

Eu tô fazendo o meu caminho

E não peço que me sigam

Cada um faz o que pode

Os homens passam, as músicas ficam (grifo nosso

 

Quanto ao paralelismo de mente e corpo, Spinoza quebra com a ilusão da moral, de que ela domina as paixões de qualquer maneira, seja através do livre arbítrio, do finalismo (onde o bem iluminaria o nosso percurso), ou seja, através das ideias teológicas. Spinoza está dizendo que a consciência não acrescenta nada para nós. É um pensamento imanente, onde as duas coisas devem caminhar juntas.

Na canção “Aquela coisa”, Raul assevera o seguinte: “Minha cabeça só pensa aquilo que ela aprendeu/Por isso mesmo, eu não confio nela, eu sou mais eu”. De forma bastante sutil e debochada, Raul acaba por demonstrar o paralelismo entre corpo e mente. Não é somente a cabeça, a razão, quem comanda, mas sim o indivíduo, uno. 

 

Os afetos

 

O que Spinoza coloca quando vai falar dos afetos é importante para entendermos a concepção do que ele entende dos afetos, da servidão e da liberdade. O filósofo faz uma crítica aos filósofos que haviam falado sobre os afetos, pois para ele, a maneira como se falava dos afetos era de uma maneira retórica. 

Spinoza traz que “os que escreveram sobre os afetos e o modo de vida dos homens parecem, em sua maioria, ter tratado não de coisas naturais, que seguem as leis comuns da natureza, mas de coisas que estão fora dela”.

Nossa maneira de pensar é exatamente essa. Nós falamos das nossas paixões, emoções, pensamentos, como se fosse algo que estivesse fora da natureza.

Raul Seixas, na canção “Sim”, fala sobre os afetos, mas, novamente apontando um caminho para a liberdade, como podemos ver.

A dor é uma coisa real que a gente está aprendendo a abraçar

E não temer a velha história do mal tão conhecida

Que já nem pode mais nos assustar

O amor é uma coisa real e a gente nunca deve se esquecer

De festejar, cada momento pra nós é pura alegria

É tudo o que a vida tem pra dar

Vem pegar o que é seu

A gente sofre, a gente luta, pois nossa palavra é sim

A gente ama, a gente odeia, mas nossa palavra é sim

Viver é coisa irreal, uns chamam de magia e é tudo tão normal

Mas tá legal, tem mágica solta no ar, faz parte do astral

E é isso o que a vida tem pra dar

Vem conquistar o que é seu (grifo nosso)

 

Mas mesmo com tais pistas, qual homem alcança esse estado de liberdade? Se não seguirmos a ética, vamos ficar num conceito distante da realidade.  Spinoza apresenta o campo das ações, mas antes de entrar, ele precisa analisar o campo da paixão, onde o homem é escravo, pois é justamente o que ele vê acontecer com mais frequência.

 

A servidão

 

Após ter se debruçado acerca da ciência dos afetos, Spinoza avança no campo da ética, se preocupando com a servidão e a liberdade do indivíduo, com a finalidade de oferecer um novo caminho para se responder o que está no poder do indivíduo.

Para Spinoza, a servidão é o estado natural do homem. De forma mais simples possível, pode se dizer que a definição spinozista de servidão é a do momento em que o homem está sob a força da paixão, ou seja, quando não podemos moderar os afetos. No prefácio da Parte IV da Ética, Spinoza aduz:  

Chamo de servidão a impotência humana para regular e refrear os afetos. Pois o homem submetido aos afetos não está sob seu próprio comando, mas sob o do acaso, a cujo poder está a tal ponto sujeitado que é, muitas vezes forçado, ainda que perceba o que é melhor pra si, a fazer, entretanto o pior.

 

Nas palavras de Marilena Chauí (2016, p. 239):

A servidão é definida por um negativo: impotência humana para impor medida e freio aos afetos, pois, em lugar de submetê-los, o homem está submetido a eles. Humana, a impotência não é apenas do corpo ou da mente, mas de ambos em simultâneo, tendo como contrapartida um poderio externo que os domina, a fortuna, contingência desagregadora, que, como no verso de Ovídio, nos obriga a dizer: “Vejo o melhor e o aprovo; sigo o pior”.

 

Logo, é preciso encontrar um caminho onde as partes da natureza humana saiam da servidão para encontrar a coerência, a constância e a conveniência com as partes da natureza, de modo que nos fortaleça e possamos alcançar a virtude e chegarmos na liberdade.

O caminho para realizar esses encontros, Spinoza vai dizer que é pelo conhecimento. Portanto, podemos afirmar que quanto mais conhecimento sobre os afetos o homem possui, mais ferramentas terá para poder controlar sua capacidade de afetar e ser afetado, logo será mais livre. 

No estado de servidão o homem, muitas vezes, sequer sabe que está em tal estado, por isso pouco se preocupa com o conhecimento. Pelo fato da servidão ser o seu estado natural, ele crê que viver à mercê do acaso, na passividade, é o único caminho que pode ser trilhado. 

Uma das canções mais célebres de Raul exemplifica esse homem em estado de servidão. Em “Ouro de tolo”, Raulzito faz um perfeito esboço da figura do escravo: um sujeito indignado com a situação humana, que se sente infeliz, mesmo após conseguir estabilidade financeira e status. É certo que o modus operandi capitalista nos impõe a condição de servidão.

Nota-se como o ciclo vicioso imposto pelo capitalismo encontra-se em congruência com o ciclo vicioso denunciado por Spinoza, o qual paixões tristes, gera uma tristeza, que gera uma concepção de mundo limitada, que gera algum tipo de preconceito, que cria um sistema para evitar que coisas piores aconteçam - que Spinoza chama de superstição -, que gera uma moral, que gera servidão, que gera mais impotência, que gera mais incapacidade de lidar com o mundo.

Esse flerte de Raul Seixas com o spinozismo pode ter se dado de maneira indireta, por influência de Nietzsche, que também se aproxima do pensamento de Spinoza, e por quem Raul tinha grande admiração, exercendo grande influência sobre sua obra.

Um dos problemas levantados por Spinoza seria, então, como alcançar o máximo de paixões alegres a fim de que nos tornemos livres, ou como nos afastar o máximo possível da tristeza e da servidão. Raul Seixas também suscita tal questão na canção, menos badalada que a anterior, “Você”.

Você alguma vez se perguntou “por quê”?

Faz sempre aquelas mesmas coisas sem gostar

Mas você faz, sem saber porque, você faz e a vida é curta

Por que deixar que o mundo lhe acorrente os pés?

Fingir que é normal estar insatisfeito

Será direito o que você faz com você?

Por que você faz isso, por quê?

Detesta o patrão no emprego

Sem ver que o patrão sempre esteve em você

E dorme com a esposa por quem já não sente amor

Será que é medo?

Por que, você faz isso com você?

Por que você não para um pouco de fingir?

E rasga esse uniforme que você não quer

Mas você não quer, prefere dormir e não ver

Por que você faz isso, por quê? (grifo nosso)

 

Nota-se como Raul Seixas questiona a servidão humana e aponta para uma busca pela liberdade. O homem, escravo de suas paixões, que se deixa ser afetado por afetos que diminuem sua potência, somente irá se emancipar quando encontrar sua liberdade, tanto para Spinoza, quanto para Raul. O problema nasce na servidão, mas precisa terminar na liberdade.

Spinoza define negativamente, sendo a servidão a incapacidade de regular e refrear os afetos, ou seja, é viver ao acaso, não ter poder sobre isso, sempre no campo dos afetos. Percebe-se que nas obras de ambos, não há uma saída transcendental. Raul, por sua vez, coloca a saída da servidão como sendo a própria tomada de decisão do sujeito, que levada a uma ótica spinozista, diz respeito aos afetos desse sujeito.

Proposição 8. O conhecimento do bem e do mal nada mais é do que o afeto de alegria ou de tristeza, à medida que dele estamos conscientes. [...] Proposição 14. O conhecimento verdadeiro do bem e do mal, enquanto verdadeiro, não pode refrear qualquer afeto; poderá refreá-lo apenas enquanto considerado como afeto.

 

O indivíduo vê o melhor e no entanto segue fazendo o pior. Temos o conhecimento do bem e do mal através do afeto de alegria ou tristeza, na medida em que estamos conscientes disso. Podemos também ter o conhecimento disso, mas continuar vendo o melhor e fazendo o pior. 

Spinoza ressalta que precisamos fazer alguma coisa, pois algo deve estar em nosso poder. Nesse sentido, como já vimos nas canções citadas anteriormente, Raul Seixas sempre coloca essa alternativa.

O filósofo holandês coloca a questão da natureza humana não como um modelo, mas que através dos encontros que operamos, somos capazes de criar consciência sobre os nossos afetos e encontrar os caminhos mais interessantes para aumentar nossa potência de existir, encontrando noções comuns da parte com o todo. Através desse caminho de navegação, chegamos à liberdade.

 

Liberdade

 

A visão ética do mundo coloca que a maneira como operamos nosso senso comum não nos favorece. Isso é o que Spinoza nos alerta, desde a maneira como pensamos deus, mente e corpo, os afetos, etc., pois esse tipo de visão desemboca sempre no moralismo, que alimenta o ciclo vicioso que já vimos outrora.

No spinozismo a alegria é maior que a tristeza. Essa simplicidade fundamental nos leva adiante. Somos ignorantes, todos os problemas virão, mas a alegria nos leva para algum outro lugar que nos permite cada vez mais um caminho diferenciado.

É justamente aqui que a liberdade fica mais interessante, pois se ela existe proporcionalmente é sinal de que somos livres em algum sentido e nem saibamos. Realizar a liberdade é começar a entender que as coisas estão aí da maneira como estão e que a liberdade é uma proporção da maneira de agir.

Nesse sentido, Raul Seixas pincela, no início de sua carreira, ainda junto dos Panteras, na canção “Você ainda pode sonhar”, quando traz os versos “Faça uma força, você não está velho demais pra voltar e sorrir”. Para Spinoza, nossa liberdade está em fazer encontrar o conhecimento que temos dos nossos afetos com a natureza, com a própria expressão do mundo; encontrar as causas internas e necessárias para ser cada vez mais aquilo que se é.

O filósofo tenta mostrar que o homem não é livre apesar do mundo, mas é livre se tornando parte ativa desse mundo. Se pensarmos nos afetos, como sendo algo que se alarga sobre a vida, ser livre é justamente alargar mais esse campo, ter mais superfície, sentir mais, viver mais e ter mais parte na natureza.

Assim, pode ser visto em Raul Seixas, novamente na canção “Aquela coisa”, já citada, essa necessidade de se alargar sobre a vida, alcançando a liberdade pela alegria.

Pra ser feliz é olhar as coisas como elas são

Sem permitir da gente uma falsa conclusão

Seguir somente a voz do seu coração

E então [...]

É preciso você tentar

[...]

Talvez alguma coisa muito nova

Possa lhe acontecer

[...]

E aquela coisa que eu sempre tanto procurei

É o verdadeiro sentido da vida

Abandonar o que aprendi, parar de sofrer

Viver é ser feliz e nada mais (grifo nosso)

 

Perceba como Raul Seixas exemplificou a figura spinozista do sábio. O sábio é mais potente que o ignorante, pois se analisarmos a capacidade que o sábio tem de afetar e ser afetado, sua capacidade de interagir com mundo é tal que ele consegue evitar maus encontros, maximizar bons encontros, logo, consegue ser livre. 

Quem conhece como as coisas funcionam tem essa capacidade. Liberdade é a realização de um corpo muito disposto a agir, cujas múltiplas maneiras de ser, e as múltiplas experimentações a que ele tem acesso, o permite ser afetado de tantas maneiras que há sempre algo de novo. Essa atividade de buscar conhecer as coisas também é explicitada na canção “Eu sou egoísta”, como podemos ver a seguir:

Enquanto eu provo sempre o vinagre e o vinho

Eu quero é ter tentação no caminho

Pois o homem é o exercício que faz

[...]

O que eu como a prato pleno

Bem pode ser o seu veneno

Mas como vai você saber sem tentar? (grifo nosso)

 

Raul também faz menção à figura do sábio na canção “As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor”, nesse caso, se colocando como o sábio, que possui mais recursos para lidar com a vida e ser livre.

Eu já passei por todas as religiões

Filosofias, políticas e lutas

Aos onze anos de idade eu já desconfiava

Da verdade absoluta

 

Raul Seixas e Raulzito

Sempre foram o mesmo homem

Mas pra aprender o jogo dos ratos

Transou com Deus e com o lobisomem

 

Além da já citada influência de Nietzsche na obra de Raul Seixas, não se pode olvidar da influência de Aleister Crowley. Spinoza, pela univocidade entre deus e natureza, pela imanência, resolveu vários problemas. Crowley também, pela negação da moral cristã, chega a um certo tipo de imanência, porém pela via da máxima “faze o que tu queres, há de ser tudo da lei”, constante no Livro da Lei, escrito em 1904. Raul se utilizou dessa máxima para fundamentar boa parte de sua obra, fazendo explicitamente nas canções “Sociedade alternativa” e “A lei”.

O pensamento de Aleister Crowley, como visto, tem certa semelhança com o pensamento spinozista, porém o faz de forma nebulosa, ao passo que Spinoza afirma sua teoria de maneira clara.

Por fim, na canção “A pedra do Gênesis” Raul dá a grande pista para encontrarmos a tão sonhada emancipação. Primeiro é importante determinar o significado do termo “pedra do Gênesis”. Esta seria o ponto primordial de onde surgiu a existência, o universo, capaz de responder às indagações: “de onde viemos? O que somos?”. 

A princípio a canção remete ao misticismo, até porque a busca por respostas acerca da existência, sempre esbarrou no místico, talvez por influência religiosa. O que Raul Seixas nos traz é que a resposta está tão próxima de nós que acabamos não a enxergando: a vida, a existência, é a própria resposta.

É a escada do seu velho sonho

Que vai dar sempre onde começou

É a chave do maior poder

Que não vale um chiclete que alguém mascou

[...]

É a pedra de cada dia 

Que está no chão de qualquer lugar

Aonde o mendigo pisa

E o santo cospe quando passa essa pedra

[...]

A pedra do Gênesis

Está bem aqui agora

[...]

Você pode tocar

 

Conforme se verifica da canção citada, Raul Seixas nos traz que o “aqui e agora” é o caminho perfeito para o sábio viver em toda a sua plenitude. O hoje é algo que todos podem viver. Mas e para Spinoza? 

O sábio, enquanto considerado como tal, dificilmente tem o ânimo perturbado. Em vez disso, consciente de si mesmo, de Deus e das coisas, em virtude de uma certa necessidade eterna, nunca deixa de ser, mas desfruta sempre, da verdadeira satisfação do ânimo.

 

Logo, o sábio é aquele que encontra a constância, a coerência e a conveniência nas coisas em si e ao seu redor, ou seja, na vivência.

 

Considerações finais

 

Como bem fora demonstrado no decorrer do presente trabalho, o filósofo Spinoza e o músico Raul Seixas possuem muitos pontos de convergência, quando comparamos os pensamentos filosóficos spinozistas (sobretudo em relação à obra “Ética”) com as pinceladas filosóficas deixada por Raul Seixas ao longo de toda a sua obra.

Há poucos registros de Spinoza como uma influência filosófica para Raul Seixas, mas não pode ser descartada tal hipótese, uma vez que o compositor baiano era ávido leitor de textos filosóficos e, evidentemente, se ocupou em boa parte de sua obra com conceitos filosóficos.

Neste trabalho foram trazidos os conceitos fundamentais da filosofia spinozista, de forma bastante resumida, e os principais pontos onde o pensamento do filósofo holandês reluz na obra raul-seixista. Evidente, que foram trazidas as evidências mais claras desse encontro, sendo que pode haver ainda mais encontros que passaram despercebidos.

É importante notar que ambos deixaram um imenso legado capaz de auxiliar na emancipação do homem, e por conseguinte, a emancipação social, para um mundo onde a liberdade, o amor e a alegria sejam as bases da vida coletiva. Um mundo sem exploração é possível, mas é preciso buscar o novo, pela alegria. É preciso todos nós tentarmos, pois talvez alguma coisa muito nova possa nos acontecer. É preciso que o novo venha.

 

Referências

 

CHAUÍ, Marilena. A nervura do real: imanência e liberdade. Companhia das Letras: São Paulo, 2016.

PASSOS, Sylvio; BUDA, Toninho. Raul Seixas: uma antologia. Martin Claret: São Paulo, 1996.

SPINOZA, Baruch. Ética. Autêntica Editora: Belo Horizonte, 2009.

 

 
 
 

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